A Lua se reacendeu
Uma história sobre corpo, emoções e o caminho de volta para si
Lua é aquela grande amiga com quem, por inúmeras razões da vida, passei anos sem me encontrar pessoalmente. Mas é aquele tipo de amizade que não se corrompe com o tempo. Retomamos o fio da meada e a mesma intimidade, como se tivéssemos nos visto no domingo passado.
Me conta que acabou de comer um cachorro-quente porque vinha na consulta com a “Nutri”. “É meu último dia de gorda”! E gargalha.
Lua tem essa característica de todas as minhas amigas íntimas: gargalhamos da desgraça. Acabo de me dar conta de que talvez essa seja uma característica minha que encontra ressonância nelas. Talvez tenha aprendido isso com Lua.
Está com 80 kg, o que ainda é um sobrepeso, mas não chega a ser obesidade. Sente-se gorda pela primeira vez. Pesada. “Está tudo errado”. Gosta de chocolate e Coca zero. À tarde e noite sempre é pior.
“Como por ansiedade, sou uma safada! É triste!”
A palavra safada é uma tijolada! Meu coração se aperta e tenho que fincar os pés no chão e respirar para continuar ouvindo a Lua. Mas safada segue ecoando dentro de mim.
Safada é um julgamento desmoralizante que desconsidera toda a história de aflição e reduz o valor da pessoa a um rótulo simplista. Me pergunto onde aprendemos que a autocrítica funcionaria para nos motivar.
Fazemos um exercício inicial e detectamos um padrão: há alto desagrado combinado com alta energia. Pessoas com alto desagrado costumam reclamar, se irritar, perder a paciência. Mas Lua gargalha, faz piadas e usa o sarcasmo para evitar conflitos. Por dentro, sobrevive confinada e se debatendo, toda a energia da frustração por necessidades invalidadas, machucados não tratados, atropelamentos não reconhecidos. É essa energia que cutuca e pede por doces para obter prazer e aliviar a tensão.
Me lembro de uma cena chocante: vi um homem de bicicleta ser atropelado. Ele rolou pelo capô do carro, a bicicleta caiu no chão, ele se levantou, montou nela e seguiu sem nem olhar para trás. Me perguntei o quanto aquele ser estava anestesiado e resignado diante do desamparo.
Proponho uma prática de relaxamento seguida de um chacoalhar vigoroso do corpo e um grande grito: “Há!”
Vejo pela câmera uma mulher se chacoalhando tão forte quanto pode, mas em total desritmo e desintimidade. Me sinto honrada pela confiança diante desse convite inusitado.
— Meu corpo está travado, os ombros congelados, tudo formiga e dói.
Pergunto o que a Lua tem feito para agradar esse corpo, como ele tem sido parceiro nas experiências de prazer da vida e quais seriam essas experiências sensoriais físicas, já que sexo no momento não tem sido uma alternativa.
Lua é uma mulher de 54 anos na menopausa, solteira, ensanduichada entre ser mãe 90% solo de um filho adolescente que foi muito desejado, muito amado, e se revelou neurodivergente. A mãe está lidando há mais de 2 anos com um câncer. A irmã, apesar de morar em outro estado, é uma presença essencial no equilíbrio desse tripé.
Lua me conta que sua diversão aos domingos é maratonar séries na Netflix na casa da mãe.
Lua, onde, quando e por que você se desligou do seu corpo? Não sentir os chamados do corpo serve para proteger o quê? Quem e quando cuida da Lua? Ela gargalha.
Alguns encontros depois, Lua volta surpresa da consulta médica com a aferição real do peso. Está com 87 kg e não 80. Isso a coloca na classificação de obesidade. Hoje não teve gargalhada.
Lua faz uma aula experimental de Pilates e gosta, apesar de reconhecer como é difícil se conectar com o seu corpo.
Faz pequenos ajustes graduais no seu cardápio. Inclui especiarias. Mais saladas e legumes verdes. Algumas frutas. Mais feijões.
Comprou Sucrilhos sem açúcar e com chocolate amargo, trocou o Toddynho por Yakult, agora come iogurte com “alpistes” e frutas.
Tem percebido que algumas aflições ainda causam vontade de doces, principalmente à tarde, mas tem conseguido resistir, fazendo outras atividades para aliviar a tensão. E, ao menos, quando recorre aos doces como estratégia de regulação emocional, faz isso conscientemente.
Volta com 2 Kg a menos. Desinchou.
— Me desconectei de mim quando a minha mãe adoeceu.
“Tenho sido negligente com o meu corpo. E percebo que tenho dificuldade de acolher as minhas vulnerabilidades. Sou capaz de cuidar de todos, mas não tenho o mesmo cuidado comigo. Por isso procrastino.”
Pergunto onde ela aprendeu que a única alternativa aceitável para lidar com os problemas é o bom humor. Onde está a sua raiva? Aquela emoção que impõe limites, que impede injustiças, que delimita a prioridade das suas necessidades inegociáveis.
E a tristeza, aquela que baixa a guarda, admite as vulnerabilidades e permite a conexão?
E o medo, aquela que aponta os perigos?
Emoções aflitivas estão barradas no baile da alegria inabalável.
É uma festa solitária onde não se ganha nenhum presente.
Numa manhã qualquer, recebo no whatsApp uma foto de suco verde! Fico sem ar por alguns segundos. De Toddynho ao suco verde espontaneamente (juro pela minha mãe que não foi ideia minha) é uma revolução. Meu coração quase não cabe no peito de alegria.
2 meses depois, o peso volta para a faixa de sobrepeso.
Pergunto: o que você vai fazer para comemorar a sua conquista junto com o seu corpo que não seja comer doce?
Decidimos juntas interromper o percurso por aqui. Lua fez tudo o que estava ao seu alcance, mas, para avançar, precisará de uma dedicação que está direcionada aos cuidados da sua mãe. É uma pausa num patamar mais confortável. Por hora já foi um grande passo.
A última notícia que tive foi que Lua agora, além do Pilates, pratica dança. O peso segue estável. As três, ela, a mãe e a irmã, seguem guerreiras, lidando com a vida ao longo do tratamento de um câncer incurável.
Lua segue gargalhando na área VIP do meu coração.
Esta é uma história real, publicada com autorização da paciente. O nome e alguns detalhes foram modificados para preservar sua privacidade.
Escrevo estas narrativas para organizar meu pensamento e refinar o olhar da Nutrição Terapêutica, uma abordagem que integra as ciências da nutrição e do comportamento à espiritualidade, apoiando a transformação da relação entre corpo, alimento e identidade.
A prática Shaking Hā foi inspirada no livro The Wakeful Body, de Lama Willa Blythe Baker. Aprendi sua condução com a querida Lia Brandão e a adaptei ao contexto da Nutrição Terapêutica.
E, se esse tema despertou sua curiosidade, convido você a ouvir este episódio do podcast sobre a relação entre autocrítica e alimentação:
Para conhecer melhor esse trabalho, visite www.mariseberg.com.br.


